Entenda o que aconteceu no Hospital Colônia de Barbacena, onde milhares morreram e corpos foram vendidos a faculdades
22/08/2026
(Foto: Reprodução) Hospital Colônia fecha definitivamente após 115 anos de atividade
O Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes, ficou conhecido como palco de uma das maiores violações de direitos humanos do Brasil. Ao longo de décadas, milhares de pessoas foram internadas em condições degradantes na instituição, considerada o maior manicômio do Brasil.
Estima-se que cerca de 60 mil pacientes morreram no local e que pelo menos 1.800 corpos tenham sido vendidos para universidades e faculdades de medicina do país.
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Nesta semana, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação para cobrar reparação pela venda de cadáveres a uma faculdade de medicina de Belo Horizonte, entre 1971 e 1975. Segundo a investigação, ao menos 105 corpos foram comercializados para uso em aulas de anatomia.
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) confirmaram que também receberam corpos e, recentemente, fizeram pedidos públicos de desculpas.
O que era o Hospital Colônia?
Hospital Colônia de Barbacena
Centro Cultural do Ministério da Saúde/Divulgação
Criado em 1903, o espaço surgiu como uma instituição destinada ao tratamento de pessoas com transtornos mentais, que, muitas vezes, davam entrada sem diagnóstico médico adequado.
Com isso, não apenas pacientes com doenças mentais eram enviados para lá, mas também aqueles considerados indesejados pela sociedade da época, como homossexuais, militantes políticos, grávidas, indivíduos com deficiências, transtornos ou distúrbios, além de mulheres rejeitadas pelos maridos ou que haviam perdido a virgindade antes do casamento.
Aproximadamente 60 mil pessoas morreram na instituição. Muitos dos óbitos estavam associados às condições desumanas de permanência, à falta de cuidados médicos adequados e à própria estrutura do local.
Os ambientes eram extremamente precários, e os pacientes dormiam em um modelo conhecido como 'leito único', que consistia em deitar diretamente no chão frio, coberto somente por capim seco.
A história da instituição foi contada no livro-reportagem 'Holocausto Brasileiro', da jornalista Daniela Arbex. A obra conquistou o 2º lugar no Prêmio Jabuti, em 2014.
Como funcionava a venda de corpos?
Investigações do MPF indicam que, entre 1971 e 1975, ao menos 105 corpos de pacientes internados compulsoriamente foram vendidos à então Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Cada cadáver era comercializado por 50 cruzeiros novos, valor que, segundo documentos da época, serviria para custear gastos de conservação e transporte.
Imagem de arquivo mostra pacientes do Hospital Colônia de Barbacena
Divulgação
Ao todo, cerca de 1.800 corpos de pacientes do Hospital Colônia foram enviados para instituições de ensino entre as décadas de 1960 e 1980 para utilização em aulas e pesquisas anatômicas.
Neste ano, UFMG e UFJF reconheceram o recebimento desses restos mortais e apresentaram pedidos públicos de desculpas. Segundo a UFJF, os registros internos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) indicam que a universidade recebeu 169 cadáveres entre 1962 e 1971 para atividades didáticas nas aulas de anatomia dos cursos da área da saúde.
“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Juiz de Fora pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática, que violou a dignidade das pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena e desrespeitou seus corpos”, afirmou a instituição em nota.
O que o MPF pede agora?
No caso da ação ajuizada contra a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), o MPF aponta graves violações de direitos humanos, entre elas a violação do direito à identidade, à integridade física e a um sepultamento digno.
Também são réus no processo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), o Estado de Minas Gerais e a União.
Entre as medidas solicitadas pelo MPF estão:
Pedidos públicos de desculpas: publicação de declarações oficiais que reconheçam as violações e realização de cerimônias públicas em homenagem às vítimas do Hospital Colônia.
Preservação da memória: digitalização de documentos históricos e criação de um memorial em Belo Horizonte dedicado à história dos pacientes e das violações ocorridas na instituição.
Mudanças na formação médica: inclusão obrigatória de conteúdos sobre violência asilar, direitos humanos e bioética nos cursos da FCMMG.
Nova regulamentação nacional: edição, pelo Ministério da Educação (MEC), de uma norma para disciplinar a origem, o uso ético e a rastreabilidade de cadáveres utilizados no ensino médico, além da criação de mecanismos permanentes de fiscalização.
Indenizações: pagamento de R$ 13,7 milhões por danos morais coletivos, valor calculado com base no benefício econômico obtido com a comercialização dos corpos. O MPF também pede que a Feluma destine R$ 1,1 milhão ao financiamento de pesquisas acadêmicas independentes sobre o caso.
Garantia de não repetição: adoção de medidas para fortalecer a política de saúde mental, incluindo o pedido para que União e Estado de Minas Gerais sejam impedidos de realizar cortes ou contingenciamentos nos recursos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) pelos próximos 15 anos.
A FCMMG e a Feluma afirmaram que sempre colaboraram com o MPF nas apurações e que apresentarão as defesas em um momento oportuno. A Fhemig, por meio da Advocacia-Geral do Estado (AGE), e a Advocacia-Geral da União (AGU), que representa a União, informaram que ainda não haviam sido intimadas da ação.
O fim do Hospital Colônia
A desativação do Hospital Colônia começou na década de 1980, impulsionada por uma nova compreensão sobre a saúde mental, pelo avanço da luta antimanicomial e por mudanças nas políticas públicas voltadas ao tratamento psiquiátrico no país.
Em maio deste ano, em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, um evento com a presença de diversas autoridades municipais e estaduais marcou o fechamento definitivo da instituição, após a transferência dos 14 moradores que ainda permaneciam no hospital.
Sem vínculo com familiares, eles foram levados a uma residência terapêutica e ficarão sob cuidados da Prefeitura de Barbacena.
Mesmo com o fim das atividades, o Hospital Colônia permanece como símbolo de um dos capítulos mais traumáticos da história da saúde mental no Brasil. As investigações sobre as mortes, a comercialização de corpos e as responsabilidades do Estado mantêm em debate questões relacionadas à memória, à reparação e aos direitos humanos.
Como espaço de memória, o local abriga o Museu da Loucura, com exposições, textos, fotografias, documentos, objetos, equipamentos e instrumentos cirúrgicos que retratam a história do tratamento destinado aos pacientes.
O prédio fica no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), no bairro Floresta, e funciona diariamente, das 8h às 18h, com visitação gratuita.
Museu da Loucura em Barbacena
Millard Schisler/Museubrasil.org
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